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A rigidez cognitiva do ponto de vista autista

Foto do escritor: Pedro Anacleto
Pedro Anacleto
10 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 14 de set.

Uma das maneiras de explicar a experiência autista é a constante luta contra a frustração. A rigidez cognitiva e a dificuldade de regulação emocional são desafios diários na vida das pessoas que vivenciam o espectro.


Este texto é um compilado de relatos anônimos sobre a percepção autista da rigidez cognitiva.


Alterações na rotina, mesmo quando envolve interesses pessoais


"Sempre me vejo dependente da minha rotina ou refém dos meus interesses restritos. Apenas a ideia de iniciar uma nova tarefa (incluindo jogar um videogame novo que estou aguardando há um tempo) me gera muita ansiedade e é comum eu precisar vencer a frustração antes de me divertir com qualquer coisa. Sempre me machuco quando começo algo novo, sempre me pergunto se realmente estou me divertindo com aquela atividade e pode demorar semanas para eu compreender o quanto aquilo foi (ou ainda é) bom para mim."


"Incluir coisas novas na minha rotina é um parto, isso faz com que eu me recuse a aprender um idioma novo porque pensar em ter que dominar todas as bases me frustra antes de eu tentar. E eu me frustro muito quando algo sai da minha rotina esperada ou dos meus planejamentos; eu me sinto inseguro por ter crises de ansiedade quando preciso aprender novos processos ou me adaptar a novos contextos."


A rigidez cognitiva se refere a padrões de pensamentos e comportamentos inflexíveis, tornando a adaptação a novas situações ou ao ambiente um desafio. Ter que lidar com uma mudança de atividade de foco ou uma tentativa frustrada em relação a uma atividade ou planejamento específico pode provocar crises de ansiedade, angústia perseverante e paralisações.


Os comportamentos rígidos são apontados no critério B do DSM-5-TR para o Transtorno do Espectro Autista e descrevem a rigidez cognitiva como "insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente)".  


O mesmo também vale para outro critério do item B: "interesses fixos e altamente restritos em intensidade ou foco (p. ex., forte apego a ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos e perseverativos)". “Tenho muita dificuldade de comer outras comidas, senão as minhas comidas de conforto. Mesmo que eu esteja com muita fome, é muito difícil me alimentar de outras coisas, muitas vezes já fui dormir com fome por isso. No trabalho, tenho uma maneira específica de realizar as minhas tarefas, sempre faço da mesma forma, mesmo que este seja o caminho mais longo, se mudo o que eu faço, penso que tudo vai dar errado, como se algo catastrófico fosse acontecer. Inclusive, já refiz vários trabalhos do zero por conta dessa sensação.“


Um contexto estruturado é suporte executivo


A rigidez cognitiva (também chamada de rigidez comportamental) afeta a forma como conseguimos ajustar nossos pensamentos e comportamentos diante de uma nova situação.


A previsibilidade e a repetição podem nos beneficiar.


Do ponto de vista da socialização, por exemplo, uma pessoa autista pode se sentir confortável e até mesmo extrovertida se tiver a previsibilidade de quem vai ver e da frequência desses encontros. Contextos estruturados, como o ambiente de trabalho, a escola ou a faculdade, são bons exemplos disso. Logo, é possível saber quem são os colegas que vão te acompanhar todos os dias naquela atividade, tornando a socialização mais fácil nestes ambientes.


Um ambiente não estruturado, como uma festa ou um jantar entre conhecidos com convidados distintos, pode provocar uma ansiedade muito maior. Como não sabemos quem estará no ambiente ou se vamos reencontrar aquelas pessoas em outros momentos, podemos não saber exatamente como nos comportar, como nos vestir, o que falar ou o momento correto para dizer algo.


Pela falta de previsibilidade ou repetição, o ambiente desestruturado provoca uma sensação maior de insegurança e força a própria introversão.


A rotina é uma forma de estruturação


Nossas atividades da vida diária também são afetadas pela rigidez cognitiva.


Quando temos um planejamento sobre nossa rotina, conseguimos manejar melhor a ansiedade e aumentar a sensação de controle sobre o ambiente. Ter uma atividade diferente planejada para uma data ou horário específico, com referências visuais e lembretes deste acontecimento, pode até gerar uma ansiedade de antecipação, mas trabalha nossa flexibilidade para lidar com o novo.


“Escrever poemas era algo rotineiro para mim. Entre 2010 e 2012, eu alimentei cinco blogs diferentes com meus versos, até que, no final de 2012, eu precisei mudar de cidade para cursar a faculdade e trabalhar e, então, minha rotina mudou completamente. Fiquei sem escrever poemas até 2020, quando, no contexto da pandemia, eu voltei a versificar. Durante esses oito anos, pensei que não voltaria a escrever poemas, parecia que eu tinha simplesmente perdido essa capacidade. É como se, para determinadas atividades, a rotina exigisse um contexto. Se este contexto muda, muda a rotina e, portanto, sinto que perco as habilidades para executar certas atividades do contexto anterior. Transferir habilidades para novos contextos pode ser um desafio e tanto, mas quando comecei a colocar pequenas metas e definir um dia e horário na semana em que eu ia tentar escrever, foi como se eu estivesse me resgatando de um sequestro."


Como você observa o impacto da rigidez cognitiva nas suas atividades?

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Pedro Dantas Anacleto é terapeuta analítico

O autor


Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.


Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.




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© 2026 por Pedro Anacleto

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