top of page

Como o autista com diagnóstico tardio vivencia a "Jornada do Herói"

Foto do escritor: Pedro Anacleto
Pedro Anacleto
há 2 dias
5 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

A "Jornada do Herói" foi apresentada por Joseph Campbell no livro O Herói de Mil Faces (1949) e analisa os padrões e semelhanças em diversas mitologias pelo mundo. Ela foi inspirada pelas obras de Carl Jung, da Psicologia Analítica, e tem muitos paralelos com as interpretações de Marie-Louise von Franz sobre os contos de fadas, abordando as fases do processo de individuação. Tornou-se um grande guia para as narrativas nas mídias do cinema e dos videogames quando foi popularizada por Christopher Vogler, um roteirista da Disney que adaptou o modelo como um "roteiro para roteiristas" desenvolverem as suas histórias.


Na vida real, esse caminho não é linear, mas compreender a Jornada do Herói pode trazer certa previsibilidade para aqueles que acabaram de receber o diagnóstico tardio de autismo ou estão buscando respostas que justifiquem determinadas etapas comuns na vida e no processo de conhecer o Si-mesmo.



A Jornada do Herói do ponto de vista autista


Mundo Comum: partimos de um estado de relativa inconsciência em relação ao transtorno. Percebemos que somos diferentes das outras pessoas, mas não compreendemos exatamente o porquê. Enfrentamos desafios comunicacionais, sociais, sensoriais e emocionais, mas buscamos normalizar essas questões, pois o mundo que nos foi apresentado tende a normalizar determinados comportamentos sociais, a hiperexposição a estímulos e a sobrecarga. Acreditamos que precisamos nos adaptar a esse mundo.   


Chamado à Aventura: o sentimento de não pertencimento e as dificuldades enfrentadas estão sempre presentes. A inadequação, as constantes crises e os desafios de adaptação na escola, no trabalho ou até mesmo com a própria família despertam a necessidade de buscar respostas. Questionar as próprias experiências de vida, ter acesso a conteúdos de outros autistas ou acompanhar o diagnóstico de algum amigo ou parente próximo passa a ser o gatilho para considerar a possibilidade de fazermos parte do espectro. É nesse momento que muitos de nós buscamos o diagnóstico.


Recusa do Chamado: "Será mesmo que sou autista?" Seja para tomar a decisão de investigar ou mesmo após ter recebido o diagnóstico, é comum nos perguntarmos se realmente somos autistas, se somos uma farsa ou se a avaliação dos profissionais estava correta. Vivemos uma vida inteira sem o diagnóstico e, por isso, podemos negar a sua existência ou a busca por ele durante algum período. Fatores econômicos também podem influenciar nessa recusa. Essa resistência parte da nossa própria falta de conhecimento integral sobre nós mesmos ou sobre o transtorno, pois ainda entendemos o autismo como algo estigmatizado pelos estereótipos projetados pela sociedade.


Encontro com o Mentor: Passamos a olhar mais para outros autistas e buscamos informação e acolhimento em grupos, comunidades e terapeutas. Entramos num processo de corregulação com essas pessoas, imitamos comportamentos, assumimos informações como conselhos e vemos pessoas que já passaram por processos parecidos com o nosso como mentores. Esses "mentores" nos ajudam a compreender melhor o transtorno do espectro autista e a sua pluralidade. Ainda nos comparamos muito com os outros autistas, e isso pode gerar dúvidas e questionamentos quando olhamos para dentro de nós.


Cruzamento do Primeiro Limiar: Entendemos que o espectro é amplo e passamos a aceitar que possivelmente o diagnóstico está correto, mesmo que ainda não aceitemos o fato de sermos autistas. É comum começarmos a finalmente nos identificar como pessoas autistas em espaços públicos.


Provações, Aliados e Inimigos: Neste momento, nossos olhos se abrem para os estigmas preconceituosos e capacitistas em relação às deficiências. Muitas vezes temos o diagnóstico diminuído ou negado por pessoas próximas, que não compreendem o autismo como ele realmente é e se manifesta. Atitudes que antes não compreendíamos que nos incomodavam passam a nos afetar de forma consciente. Essa vivência muda a forma como nos relacionamos, altera a dinâmica de relações já estabelecidas e se torna uma provação emocional muito difícil, pois lidar com mudanças é um grande desafio identificado nos critérios diagnósticos. Mas também nos conectamos com pessoas que nos acolhem ou compreendem e com pares autistas que nos ajudam a lidar com todo o processo.


Aproximação da Caverna Oculta: Paramos de nos comparar tanto com outros autistas e passamos a observar e compreender os próprios comportamentos como algo individual. Neste momento, começamos a entender o autismo mais profundamente e como ele moldou o nosso desenvolvimento. Podemos ficar mais reclusos, sentir um grande vazio — também manifestado pela sensação de solidão, mesmo quando há pessoas ao redor —, pois é o momento em que uma morte simbólica acontece: entendemos que não somos neurotípicos e que o esforço para isso é em vão. Uma coisa é aceitar o diagnóstico, outra é aceitar ser autista.


Provação Suprema: Com a integração do autismo à nossa identidade, enfrentamos desafios nos relacionamentos, nas adaptações no mercado de trabalho e nos ambientes de estudo e convívio. Precisamos ponderar quando nos expor ou quando mascarar, e sempre nos questionam sobre o que é o autismo. Podemos nos sentir na obrigação de mostrar algo que é invisível aos olhos dos outros enquanto tentamos nos manter inteiros diante da incompreensão alheia.


Recompensa: Finalmente temos um novo entendimento sobre nós mesmos e começamos a desenvolver estratégias compensatórias mais eficazes para lidar com as nossas deficiências e dificuldades. Ressignificamos muitas de nossas crises e passamos a aceitar o autismo como parte de nós, sem nos reduzirmos ao diagnóstico.


Caminho de Volta e Ressurreição: Revisitamos momentos da infância e da adolescência com uma compreensão mais acolhedora em relação às nossas dificuldades. Reconstruímos a nossa percepção sobre eventos anteriores ao diagnóstico, definindo um renascimento simbólico.


Retorno com o Elixir: Com a nova perspectiva de mundo, inspiramos outras pessoas neurodivergentes a buscarem o autoconhecimento por meio da investigação diagnóstica ou das adaptações importantes para elas, independentemente do acesso ao diagnóstico. Também nos tornamos defensores da causa da neurodiversidade e ativistas pela inclusão, respeitando os nossos limites e sem nos submeter aos limites normativos.


A forma como cada indivíduo lida com a confirmação de sua neurodivergência é única, individual. A função do diagnóstico é fornecer estruturas adequadas para termos mais qualidade de vida — seja por meio do nosso comportamento, da mudança de perspectiva, do tipo de cuidado que buscamos ou das decisões que nos envolvem. Isso, entretanto, também nos traz a sensação de ter regredido.


É importante sempre lembrar que a Jornada do Herói não é linear: podemos vivenciar o "Mundo Comum" e o "Retorno com o Elixir" ao mesmo tempo.


A sensação de regressão também é uma forma de se responsabilizar como indivíduo em relação a algo que é coletivo. O autismo é uma deficiência, mas a deficiência (do ponto de vista social) só existe quando não há adaptações. Lembre-se de que o mundo também mudou e está exigindo cada vez mais do indivíduo. A sobrecarga sensorial que você não sentia no passado também acontece porque existiam muito menos estímulos e mudanças em nível global.

A MELHOR FORMA DE COMPREENDER O AUTISMO É OUVINDO PESSOAS AUTISTAS!


Textos como este são lidos nos Encontros Atípicos, um espaço de troca de experiências exclusivo para pessoas autistas ou em processo de investigação!


Clique aqui para saber mais e considere participar dos nossos encontros!

Pedro Dantas Anacleto é terapeuta analítico

O autor


Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.


Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.











Leia também:

Inscreva-se no Boletim Atípico!

© 2026 por Pedro Anacleto

bottom of page