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A sensibilidade autista nos interesses e na comunicação

Foto do escritor: Pedro Anacleto
Pedro Anacleto
24 de set.
3 min de leitura

Juntamente com “interesses e comportamentos restritivos e ritualísticos”, os critérios diagnósticos afirmam que o autismo também é definido por déficits na interação social e na comunicação.


Do ponto de vista das pessoas não autistas, o autismo parece se definir pela compreensão prejudicada das dinâmicas sociais ou sobre o que os outros pensam, fuga da realidade, comportamentos repetitivos e reações extremas às emoções ou a estímulos sensoriais, como ao som. Para quem não compreende o transtorno, o autismo pode ser tratado como uma patologia a ser curada ou até mesmo pela apresentação de habilidades extraordinárias. 


Independentemente de a interpretação sobre o transtorno ser capacitista ou romantizada, o consenso é de que o autismo é um desvio do comportamento considerado normal.


É verdade que pessoas autistas podem ter dificuldade em processar emoções e entender as intenções dos outros nas interações sociais. Entretanto, quando se ouvem também os relatos das pessoas autistas, é possível dizer que as mesmas dificuldades ocorrem do outro lado: as pessoas não autistas também têm dificuldade de entender as emoções, a comunicação, as intenções e os comportamentos das pessoas autistas.


Esta relação desencontrada entre autistas e pessoas alísticas foi descrita pelo Dr. Damian Milton como "o problema da dupla empatia".


A teoria da dupla empatia


A teoria do problema da dupla empatia sugere que, quando duas pessoas com experiências de vida muito diferentes interagem entre si, elas terão dificuldades de empatizar uma com a outra. Isso provavelmente ficará mais evidente pelas diferenças no uso e na compreensão da linguagem.


Se você já experimentou uma conversa com alguém que não compartilha o mesmo idioma de origem, você deve ter vivenciado algo semelhante.


O autismo é definido pelos critérios diagnósticos por ter abordagens atípicas, dificuldade no compartilhamento de interesses, comunicação verbal e não verbal pouco integrada (como a dificuldade de manter o contato visual ou a ausência de expressões faciais durante uma conversa), dificuldades em desenvolver e manter vínculos e compreender relacionamentos, além da possível presença de movimentos motores repetitivos (estereotipias), interesses restritos em assuntos específicos (monotropia), dificuldades com as mudanças de rotina e hipo ou hiperreatividade aos estímulos sensoriais.


A teoria da dupla empatia também sugere que, quando uma pessoa autista encontra outra pessoa que compartilha de experiências semelhantes, elas terão maior probabilidade de formar conexões e alcançar um nível de entendimento mais profundo sobre aquela relação. A comunicação se torna mais integrada, os interesses são compartilhados, o vínculo é formado, a relação é compreendida e há maior probabilidade de empatizar a respeito das dificuldades sensoriais ou cognitivas.


Autistas são sensíveis à intensidade dos seus interesses


O hiperfoco é conhecido na comunidade autista pelo interesse intenso em determinada atividade ou área do conhecimento. Pessoas autistas que experienciam este fenômeno tendem a compartilhar esses interesses com as outras pessoas, desenvolvendo a sua relação com o afeto e possibilitando sua conexão com o mundo e com as outras pessoas.


Esses interesses podem estar relacionados com os estímulos sensoriais, como um maior interesse por projetos artísticos como música, teatro, pintura, videogames ou culturas específicas que trabalham esses estímulos. Esta conexão pela arte é uma forma sensível de comunicação que permite superar as dificuldades da comunicação não verbal, tornando-se um lugar seguro para a expressão pessoal.


Esta relação pode ser mais intensa com a natureza, como o cuidado com plantas, a percepção do cheiro das coisas, o interesse por paleontologia ou astronomia, sendo um grande fator de autorregulação, estabelecendo uma sensação de controle sobre a ansiedade e o estresse.


Autistas podem se encontrar em momentos profundos de contemplação, seja sobre uma paisagem, um som, um videogame ou nos próprios pensamentos, entrando num estado de encantamento necessário para a regulação emocional e sensorial.


A sensação de equilíbrio também vem dos rituais e dos registros que ajudam a organizar o mundo interno. Por isso, autistas podem registrar memórias e buscar revivê-las ao longo da vida, ter grande apego afetivo por objetos, além de trabalhar em coleções e catalogações que resgatam a percepção sobre a identidade pessoal.


Seja no vincular-se aos animais, a uma praça da cidade, no aninhamento em um ambiente sensorialmente confortável, na expressão artística, na comunicação verbal ou no interesse por questões lógicas e matemáticas, todas as pessoas autistas compartilham uma grande sensibilidade afetiva em relação à sua comunicação e percepção de mundo.

A MELHOR FORMA DE COMPREENDER O AUTISMO É OUVINDO PESSOAS AUTISTAS!


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Pedro Dantas Anacleto é terapeuta analítico

O autor


Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.


Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.



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© 2026 por Pedro Anacleto

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