A importância dos videogames para uma pessoa autista
- Pedro Anacleto
- 12 de jun.
- 4 min de leitura

Videogames ocupam um espaço sagrado para mim.
Desde criança, quando compreendi os jogos digitais como algo que fazia parte da minha vida, tive momentos de distanciamento dos jogos — não porque eu não quisesse jogar, mas porque as condições financeiras não permitiam que eu tivesse acesso a um console ou PC.
Em alguns momentos, até pensei que videogames eram algo que eu precisava deixar para trás, muito motivado pela expectativa normativa de que os jogos e a vida adulta não são compatíveis.
Mas eu sempre voltava para os jogos nos meus momentos de introspecção, mesmo que algumas pessoas ao meu redor me criticassem ou julgassem pelo fato de eu juntar uma quantia relevante de dinheiro e assumir determinados riscos para comprar um console ou um game novo.
A melhor decisão que tomei na minha vida foi assumir os videogames como um interesse fixo e importante para o meu processo de descanso e regulação emocional.
Como sou uma pessoa autista, eu preciso de muito suporte para lidar com minhas emoções, e os jogos, além de fazerem parte desse suporte, atiçam os meus interesses intensos, dando-me mais repertório para interagir com as pessoas ou produzir conteúdos como este. Mas às vezes, é claro, eu preciso de ajuda para parar de jogar e cuidar de demandas de trabalho, estudo e relacionamento.
Benefícios do videogame no contexto da neurodiversidade
O conceito de um jogo digital parte de três dimensões:
Liberdade:
Competitividade;
Lúdico.
Na dimensão da liberdade, somos expostos a um mundo novo, com suas próprias regras, desafios e objetivos que não somos obrigados a cumprir; isso parte da nossa decisão de estar lá. Assim como as emoções envolvidas, a diversão ou a frustração na experiência de jogo são bem estruturadas pela narrativa e pela mecânica, sendo uma via segura para acessar emoções e sensações diferentes e lidar diretamente com elas.

Quando olhamos para a dimensão da competitividade, habilidades sociais essenciais são trabalhadas no videogame, envolvendo a comunicação cooperativa, o planejamento em equipe e a rivalidade. O desenvolvimento dessas habilidades no videogame pode ajudar nos contextos sociais fora do ambiente digital.
Por fim, a dimensão do lúdico torna a pessoa que está jogando sujeito ativo da ação, tirando-a do mero papel de observadora, como acontece em outras mídias digitais como filmes ou séries. Para nós, neurodivergentes, que muitas vezes nos sentimos isolados ou passivos em relação ao mundo ao nosso redor, somos acolhidos ao assumir o protagonismo no universo apresentado pelos videogames.
Nos videogames, tomamos decisões o tempo inteiro, seja o momento ideal para realizar um salto ou golpe, ou até mesmo o tempo que deixamos o personagem parado observando um cenário ou ouvindo a trilha sonora. São nossas decisões que ditam a nossa experiência, em um ambiente muito previsível e controlado.
Essas experiências são sentidas por pessoas típicas também.
Mecânicas dos videogames e sinergias com o autismo
Uma das características mais marcantes do Transtorno do Espectro Autista são os padrões restritivos ou repetitivos de comportamentos. Muitos jogos exploram mecânicas repetitivas e ritualísticas como base da experiência de gameplay.
A marcante franquia Diablo, por exemplo, é conhecida por explorar a busca de itens lendários que exigem a repetição constante de rotas e masmorras. O ritual de repetir as mesmas tarefas provoca um senso de previsibilidade, sendo um agente regulador para pessoas autistas.
Os jogos de RPG japoneses, como Final Fantasy, foram responsáveis por uma era de ouro na geração do Super Nintendo e PlayStation 1 com mecânicas de grinding, que consistiam em ficar dando voltas em uma parte específica do mapa, enfrentando os mesmos monstros repetidamente para subir de nível e fortalecer os personagens.
Pokémon, franquia conhecida por ser amada por autistas, explora a catalogação, coleção e classificação dos monstrinhos, além da repetição das mecâncias de griding para treinar os pokemons.
Os videogames também oferecem a experiência de ter diálogos complexos com tomada de decisão e impactos reais. RPGs ocidentais com grande foco em narrativa, como The Witcher ou Baldur's Gate, permitem ao jogador escolher uma gama de opções de diálogos que impactam significativamente a narrativa, incentivando a repetição do jogo para ver as ramificações do enredo com base nas escolhas feitas.
Existe um gênero específico de jogos chamado Roguelike, no qual toda mecânica dos jogos são baseadas em um loop repetitivo e previsível.

O jogo digital, além de tudo, é um tipo de mídia que explora a relação multissensorial do jogador. No autismo, em razão da reatividade e da sensibilidade sensorial alterada, os jogos podem ser experiências muito poderosas. Tetris Effect: Connected transforma a experiência de um dos jogos mais jogados de todos os tempos em uma imersão sonora, musical e visual. Unpacking explora o processo de organização de objetos encaixotados em um cômodo fixo, sendo uma experiência de sistematização agradável.
Controles de videogames, como o DualSense do PlayStation 5, promovem uma experiência tátil imersiva, com o uso de vibração localizada que permite sentir os passos do personagem, imersão sonora e botões traseiros (gatilhos) adaptáveis que oferecem resistência mecânica ao acelerar/frear em jogos de corrida, tal como a simulação de "coice" em jogos de tiro.
Toda a repetição e estímulo sensorial dos videogames simula comportamentos estereotipados do autismo, como o stimming, que são comportamentos autoestimulatórios responsáveis pela expressão e regulação emocional autista. Fazendo dos jogos uma atividade ocupacional muito adotada por pessoas autistas.








