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A lógica da permanência no Transtorno do Espectro Autista

Foto do escritor: Pedro Anacleto
Pedro Anacleto
3 de jul.
4 min de leitura

Uma grande parte dos autistas vivem o mundo pela lógica da permanência. Esta lógica representa uma maneira do cérebro de organizar o mundo com o tripé que define a regulação autista: previsibilidade, segurança e constância. O estado atual das coisas pode nos levar à interpretação de que tudo será do jeito como está, mas o mundo não funciona exatamente desta maneira…


Para entendermos a lógica da permanência, podemos olhar para o conceito de permanência do objeto proposto por Jean Piaget ao estudar a psicologia do desenvolvimento cognitivo. Mas antes um adendo: olharemos para o conceito de permanência do objeto como uma analogia e não como uma condição cognitiva que define o autismo, pois não há estudos específicos sobre essa questão em pessoas autistas.


Piaget define a permanência do objeto como o processo de compreender que um objeto continua existindo mesmo quando ele não está no seu campo de visão. Embora não seja uma regra, no autismo e outras neurodivergências, o conceito de permanência pode ser interpretado como: o objeto não existe se ele não está no campo de visão, a não ser que algo remeta ao objeto diretamente e ele passa a existir novamente.


A percepção do luto ou ausência na neurodivergência


A lógica também entra nas molduras relacionais: se uma pessoa deixa de fazer parte de sua rotina, ou seja, se ela ‘sai do seu campo de visão’, é comum não sentirmos a sua ausência de forma típica. Se algo está, ele deve permanecer. Essa lógica é referente à rigidez cognitiva para lidar com mudanças, e, quando a mudança ocorre, pode ser extremamente difícil processar essas informações.


Fernanda Luiza, criadora de conteúdo sobre autismo no Threads, descreve a seguinte situação: “quando alguém morre, essa lógica se rompe, mas o cérebro autista pode demorar a entender o que isso significa de fato. A ausência não é registrada de imediato, pode parecer que a pessoa só está demorando para voltar ou que vai aparecer em qualquer momento. Só depois, quando a rotina evidencia o vazio, o impacto vem. E pode vir com crise, regressão, silêncio ou dor física mesmo. É o luto chegando fora do tempo, mas com tudo dentro.”


Se pesquisarmos no Reddit sobre a permanência de objetos e autismo, podemos encontrar relatos como: “Quando alguém está longe da minha presença, meu cérebro simplesmente assume que eles entram em algum tipo de estado de estase até que seja hora de vê-los novamente. É como se eles fossem colocados onde quer que eu os veja em seguida e começassem a cena a partir daí. Não consigo imaginar o que eles fazem consigo mesmos quando não estão na minha presença. Intelectualmente, sei que isso não é verdade, mas acho que em um nível “emocional” (na falta de um termo melhor) eu simplesmente não consigo.”


Essa característica no autismo encontra os critérios diagnósticos que definem os déficits na reciprocidade socioemocional e a dificuldade em desenvolver, manter e compreender relacionamentos. O mesmo se aplica a insistência em padrões restritos de comportamento, interesses e atividades, fazendo algumas relações saírem do foco autista quando elas não estão inseridas no contexto e rotina atual.


A permanência e a deficiência da confiança


Do meu ponto de vista, é comum eu ficar semanas sem falar com minha família ou com amigos que sinto a segurança da permanência, pois eles não participam da minha rotina. Mas se alguns dias se passam sem uma interação nova que estava começando a virar rotina, eu penso que o mundo está desmoronando e nada faz sentido lógico, me gerando desconfiança e desregulação.


O conflito é que a lógica da permanência implica na deficiência da confiança. Confiança de que um relacionamento passará por suas etapas de construção de forma adequada e se manterá após isso; de que o mundo continuará sendo o mesmo no dia de amanhã; ou que meu corpo continuará saudável ou doente ao lidar com uma intempérie.


É difícil confiar no mundo sendo autista, mas também é difícil não ser ingênuo quanto ao ao desejo de um presente que permaneça em seu estado a fim de oferecer o mínimo de previsibilidade. Essa lógica da permanência pode estar presente até para as situações que nos geram desconforto, conflitos e traumas. Os movimentos repetitivos e ritualísticos típicos do autismo são formas de manter esta lógica intacta, dando a sensação de controle e previsibilidade.


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Pedro Dantas Anacleto é terapeuta analítico

O autor


Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.


Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.



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© 2026 por Pedro Anacleto

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