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Como FINAL FANTASY me ajudou a aceitar o diagnóstico tardio de autismo

  • Foto do escritor: Pedro Anacleto
    Pedro Anacleto
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

A franquia FINAL FANTASY chegou para mim por acaso do destino. Ou, melhor dizendo: Sincronicidade. Meu pai estava curioso em uma banca de camelô no centro de Belo Horizonte, vendo o encarte da versão japonesa de Final Fantasy VIII, que chamava a atenção por ser mais espesso que os demais jogos. Final Fantasy VIII continha quatro discos e, ao abrir o encarte, eles caíram no chão, quebrando o 3º CD. No Natal do ano 2000, meu pai comprou um console PlayStation, pois a curiosidade sobre Final Fantasy foi para além do incidente.


Encarte da vesão japonesa de Final Fantasy VIII
A versão japonesa de FFVIII tinha uma capa minimalista e cheia de detalhes simbólicos.

Não tínhamos o cartão de memória essencial para salvar o jogo, então, todos os dias, assistíamos à abertura com Liberi Fatali, conquistávamos uma etapa a mais e nos surpreendíamos com cenas lindas, como a entrada da missão em Dollet, o baile em Balamb Garden ou a parada da Edea no final do primeiro disco.


Final Fantasy VIII se tornou o jogo mais importante para mim, servindo até como refúgio mental para uma criança assustada em dias críticos, e deu início a um interesse intenso e fixo na franquia como um todo até os dias de hoje.


Squall Leonhart: O lobo solitário (e eu também)


O protagonista de Final Fantasy VIII se chama Squall Leonhart. Ele não é muito conhecido como um protagonista de quem as pessoas costumam gostar muito. Bem, as pessoas também não gostavam muito de mim. Squall é chamado de lobo solitário na jornada, e seu nome remete a rajadas de vento ou tempestades repentinas de curta duração, típicas das crises emocionais do personagem. Ele também tem dificuldades claras nas interações sociais. Não era muito diferente comigo, então me identificar com aquele personagem na minha infância foi bem fácil.


Squall Leonhart é o protagonista que não queremos nos identificar
Squall é um protagonista que eu não queria me identificar

Isso serviu como um fator de corregulação e o início do meu processo de individuação. Não é muito comum pessoas autistas se identificarem com representações arquetípicas na maioria das mídias. Identificar-se é extremamente importante para você olhar para si mesmo.


Faz você sentir que não está sozinho.


O diagnóstico tardio de autismo


Meu diagnóstico veio quando eu tinha 31 anos, em 2022, depois de mais de uma década fazendo acompanhamento com psicólogos e psiquiatras para tratar de crises de ansiedade constantes e muita disfunção executiva.


Além dos relatos de familiares, presença do transtorno em outros membros da família e comportamentos críticos da minha infância, meu interesse por Final Fantasy também chamou a atenção, por ser algo que tomava várias áreas da minha vida, configurando-se como um interesse restrito, presente por toda a vida com pouca variação de intensidade.


Na conotação ampla: um hiperfoco autista.


O diagnóstico justificou dificuldades em iniciar e manter relações; déficits persistentes nos ambientes acadêmico, pessoal e profissional; a rigidez cognitiva, crises de ansiedade, interesses restritos e sensibilidades sensoriais.


Mas o processo de aceitação deste diagnóstico só começou um ano depois.


Pedro Anacleto da Taverna do Chocobo
Eu e meu Chocobinho.

A Taverna do Chocobo Gordo


Quando Final Fantasy XVI foi lançado em 2023, eu estava no momento mais importante de compreensão e aceitação do meu diagnóstico. Eu estava imerso no jogo e encontrei na Taverna do Chocobo Gordo, que fica no esconderijo de Cid, um gatilho para eu falar sobre o autismo, a neurodiversidade, meus interesses e o meu trabalho.


É exatamente isso que se faz no jogo: Taverna do Chocobo existe para socializar, restaurar as energias, criar estratégias e definir os novos rumos.


E os Chocobos são aves com características únicas, representadas por suas cores diversas. Imediatamente, elas se tornaram um símbolo da neurodiversidade para o meu propósito.


Naquele mesmo ano, eu estava me programando para ir à Distant Worlds, orquestra oficial de Final Fantasy. Comecei a produzir diversos chocobinhos com miçangas termossensíveis para distribuir no evento. Assim, eu poderia divulgar a neurodiversidade e me conectar com pessoas que compartilham dos mesmos interesses e diagnósticos que eu, além de divulgar o meu trabalho.


Taverna do Chocobo Gordo
Cada um desses chocobinhos levou alguma mensagem para o mundo e fez com que eu me conectasse comigo mesmo.

FINAL FANTASY foi fundamental para que eu me entendesse quando tinha 9 anos, para me aceitar depois do diagnóstico e para todo o trabalho e contato social que consigo realizar agora.

Pedro Dantas Anacleto é terapeuta analítico

O autor


Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.


Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.



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© 2026 por Pedro Anacleto

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