Os efeitos colaterais do diagnóstico tardio de autismo na percepção de Si-mesmo
- Pedro Anacleto
- 29 de abr.
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de mai.
Na maior parte das vezes em que a confirmação do Transtorno do Espectro Autista vem na vida adulta, nós somos sabotados pela dúvida: Eu sou mesmo autista? Eu mereço fazer parte deste grupo? Eu me entendo como uma pessoa com deficiência?

O diagnóstico tardio de autismo é reflexo de toda uma vida de busca e frustração na tentativa de se adequar às próprias dificuldades e demandas sociais. Aprendemos a mascarar parte das características do transtorno e até acreditamos que temos algum sucesso em relação a isso do ponto de vista social.
Então, somos assombrados pela ideia de que somos típicos demais para ser autistas, mas estranhos demais para não ser.
Começamos a revisitar nossa trajetória e enxergamos as tantas vezes em que nosso desejo estava desconectado das nossas atitudes:
Quando buscamos a regulação emocional e o silêncio, mas forçamos nosso corpo a ir a um evento movimentado e barulhento;
Quando planejamos toda uma agenda interessante em nossa cabeça, mas a disfunção executiva nos impede de sair da cama;
Quando aceitamos interações invasivas de pessoas porque temos medo ou dificuldade de dizer "não", e caímos no choro depois, com raiva de nós mesmos.
O momento em que percebemos que a nossa energia psíquica não pode mais ser gasta sustentando uma máscara que nega nossa própria natureza é transformador. Mas, como a própria palavra “transformador” tende a indicar, a dor é uma parte necessária neste caminho.
A experiência autista de ocupar espaços normativos (ponto de vista pessoal):
Sinto que por toda a minha vida o autismo cobrou de mim um espaço solitário de regulação que eu nunca quis ocupar. É muito estranha a sensação de que a companhia de outras pessoas serve, sim, de suporte em relação à minha capacidade de execução, mas o sufocamento social sempre me leva de volta para este espaço solitário.
Quando estou em um evento entre amigos ou familiares, não é incomum me encontrar isolado das pessoas enquanto apoio as minhas costas em uma parede. O contato com a parede fornece uma noção proprioceptiva firme e previsível. Fica mais fácil entender o espaço que meu corpo está ocupando; parece que os sons do ambiente ficam mais organizados, a ansiedade diminui e isso permite que eu recarregue as energias para lidar com as demandas sociais do momento.

Mas ainda é frustrante perceber que preciso gastar uma energia desproporcional para me sentir à vontade fora dos meus ambientes seguros, mesmo após anos do diagnóstico. Eu ainda sinto uma constante cobrança pessoal para me portar de forma típica onde quer que eu vá. E muito da minha vida já foi transformada por causa do diagnóstico.
Transformação e integração do diagnóstico tardio de autismo
A contradição do mascaramento no espectro autista é fazer com que a gente e os nossos próximos acreditem que as dificuldades foram superadas. Mas não é incomum a percepção de perda de habilidades ao receber o diagnóstico.
E isso faz parte da dor da transformação.
O que acontece com o diagnóstico é que passamos a ter mais contato com a nossa natureza individual e começamos a regular a expectativa da performance que podemos ter. À partir do momento que passamos a compreender as nossas dificuldades, passamos a expô-las para nós mesmo as características pessoais e lidar diretamente com elas. Esta etapa é fundamental do ponto de vista terapêutico do diagnóstico, e é exatamente onde encontramos a nossa dor.
Na perspectiva junguiana da Terapia Analítica, este momento é quando acessamos e confrontamos a nossa Sombra, começando a integrar o que estava inconsciente ou reprimido ao Ego, que passa a desejar algo mais compatível com o próprio Si-mesmo.
Você não ficou mais autista após o diagnóstico, mas provavelmente ouviu isso das pessoas ao seu redor.

Essa percepção — seja de si mesmo, seja das outras pessoas — ignora o esforço de uma vida inteira na tentativa de sustentar uma máscara que nunca lhe serviu adequadamente. O que se vê não é um aumento real das características relacionadas ao autismo, mas esta transformação dolorida que permite que você se adeque à sua própria natureza.
Por isso, o luto vem junto com a validação do diagnóstico. Mas, com o luto, vem também o renascimento. A dúvida que nos sabota é lentamente substituída pela autoaceitação; a dor é ressignificada, as relações mudam, aprendemos a comunicar melhor nossas dificuldades, a impor nossos limites e a nos integrar melhor à nossa própria identidade.
Assim, honramos a parede que nos suporta como um ato de autocuidado.
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O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.








