Terapia Analítica e o Self no pós-diagnóstico tardio de autismo
- Pedro Anacleto
- 12 de mai.
- 4 min de leitura

Antes de me tornar terapeuta analítico, até o meu processo de formação e análise pessoal, eu tinha muitas dificuldades em descrever quem eu sou. A falta de clareza da noção de Si-mesmo é um prejuízo comum no Transtorno do Espectro Autista que afeta diretamente como nos envolvemos socialmente.
A origem da palavra autismo parte da ideia de um Si-mesmo tão autocentrado que se desconecta das emoções, sentimentos e expressões do outro, resultando no isolamento social e na solidão. Entretanto, sabemos que a falta de empatia não é uma questão diretamente relacionada ao autismo. Em condições experimentais, pessoas não autistas também tiveram dificuldades para ler as emoções dos participantes autistas. O estudo, chamado de “Problema da Dupla Empatia”, mostra que a falta da reciprocidade socioafetiva não se deve apenas à cognição autista, mas a uma quebra na compreensão mútua que pode ocorrer entre pessoas com maneiras muito diferentes de experimentar o mundo.
Se a compreensão sobre o autismo na vida adulta é direcionada a uma culpa sobre a inabilidade pessoal de estabelecer vínculos, forçamos a criação de uma identidade que supre a necessidade do outro e desrespeita nossas características individuais para compensar os déficits sociais.
Então, quando acessamos o diagnóstico tardio, temos a oportunidade de compreender experiências passadas, desconstruir a persona criada pelo mascaramento e construir uma percepção de Si-mesmo mais coerente com aquilo que pertence à nossa própria identidade.
Essa é a base do processo analítico.
Quando nos livramos daquela persona que não nos pertence, a energia gasta para o mascaramento é direcionada para a compreensão de Si-mesmo. É verdade que podemos sentir um grande vazio neste momento, pois vivemos um luto real da morte simbólica de um Eu típico. E ainda podemos lidar com a solidão e a falta de sentido ao nos deparar com este vazio após o diagnóstico.
Compreender o autismo é parte essencial do processo, mas, para isso, é necessário olharmos para dentro, para como o próprio Eu manifesta e lida com o transtorno. A comparação com outros autistas pode exacerbar estereótipos capacitistas que ainda precisamos desconstruir e, com isso, podemos acabar achando que somos impostores no espectro.
Apreender a Si-mesmo não é só desconstruir a persona; a busca pela individuação é um trabalho de preservação do todo que nos compõe. Durante a jornada, reconhecemos e integramos os conteúdos que estão reprimidos na sombra, diferenciamos a máscara social de quem realmente somos, deciframos os símbolos que nos definem e passamos a conhecer o nosso eu em sua totalidade.

Co-regulação e individuação no autismo
Para Carl G. Jung, o processo de individuação é a integração daquilo que se compreende de si mesmo com os aspectos ainda incompreendidos da sua personalidade. Este processo é relacional: é através das nossas interações e das nossas projeções nos outros que conseguimos reconhecer e integrar aspectos da nossa própria personalidade que nos eram desconhecidos.
No caminho de tentar conhecer a si mesmo, nos relacionamos com o outro. Quando eu vejo que uma pessoa tem os mesmos interesses que eu, é mais fácil eu me relacionar com ela. Quando esses interesses são diferentes, tentamos compreender aquilo que pode nos pertencer, mas ainda está reprimido, e também encontramos aquilo que rejeitamos.
O conflito de como lidamos com os interesses e a dificuldade de compreensão nos relacionamentos torna a tentativa de se relacionar uma experiência frustrante. Pode parecer mais fácil abrirmos mão daqueles comportamentos e interesses que nos confortam em nossa individualidade para evitar lidar com a rejeição. O impacto de ser diferente é pesado para qualquer pessoa neurodivergente. A individuação como processo relacional se torna mais custosa para pessoas autistas sem compreensão ou acesso ao diagnóstico.
Com o diagnóstico tardio, precisamos lidar com a compreensão de si mesmo quando já adultos, algo que a maioria das pessoas típicas já elaborou ainda na infância.
Minha abordagem segue na direção de tornar o atípico compreendido, em um processo de transformação realizado de neurodivergente para neurodivergente.
"O encontro de duas personalidades é como o contato entre duas substâncias químicas; se houver alguma reação, ambas são transformadas." — Carl G. Jung
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O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.









