A montanha e o processo terapêutico: Ego e Individuação em Cairn
- Pedro Anacleto
- 23 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
"Tudo o que eu queria era tocar a eternidade por um instante. Chegar a um momento raro de pura satisfação, em que tudo parece estar no lugar certo, e você se sente parte de um todo. Sabe como é?" - Aava, protagonista do jogo Cairn.
Esta fala é o primeiro contato que você tem ao iniciar Cairn, jogo da The Game Bakers que conta a jornada de Aava na escalada rumo ao cume do monte Kami, destino nunca antes conquistado por nenhum alpinista. A frase de abertura do jogo simboliza o impulso que inicia, na Psicologia Analítica, um processo chamado de Individuação.
As decisões que tomamos de forma consciente são gerenciadas pelo Ego, mas o todo que compõe quem realmente somos é o Self, ou si-mesmo, sendo o centro da psique que engloba o ego consciente e o conteúdo sombrio do inconsciente. A Individuação, então, é o processo que integra a Sombra e torna saudável a relação entre o Ego e o Self, fazendo você se sentir "parte de um todo". Jung associa a Individuação com a escalada de uma montanha, mas o processo é, na realidade, uma escalada rumo ao Sol. O cume é apenas o meio do caminho e, muitas vezes, desistir é parte essencial do processo.
Quando comecei a minha escalada em Cairn, logo observei que haviam muitos monumentos de pedras empilhadas ao longo do caminho. Estes monumentos dão nome ao jogo e são construídos com o propósito de serem marcadores de trilhas em montanhas; também podem ser interpretados como memoriais em referência a uma morte. Enquanto escalamos o Kami, frequentemente encontramos mochilas e os corpos de outros escaladores que passaram por ali, e os cairns nos lembram constantemente que a morte na escalada é algo que precisa ser integrado.

Celeste é outro jogo de escalada que ganhou muito destaque na cena indie. Enquanto Cairn é um simulador 3D com elementos de sobrevivência, Celeste é 2D e representa a montanha em desafios de plataforma onde a morte é a mecânica principal. Morrer é necessário para que você seja capaz de prosseguir. A morte, então, é simbólica; portanto, parte essencial para que você seja capaz de alcançar o cume, ou a Individuação.
A questão é que Aava, em Cairn, parece não pensar muito sobre isso. Ela escala a montanha com o objetivo único de chegar ao pico; a morte não é temida, e também não é respeitada. Quando nos encontramos com Marco, outro alpinista que cruza a nossa jornada, ele deixa bem claro que o objetivo dele não é vencer a montanha e, sim, se divertir no processo. Ele fala que provavelmente descerá antes de chegar ao cume, como todos os outros que sobreviveram fizeram. Aava, então, faz pouco caso da escalada de Marco, informando que não faz sentido subir a montanha se o objetivo é desistir. Ela diz que, se ele começa a jornada já pensando na desistência, é porque a mente dele já está derrotada. Mas será que as coisas funcionam assim mesmo?
Aava é tomada por um Ego tão exacerbado que não respeita as próprias vulnerabilidades, tornando-se a personificação da própria vontade. Quando ela ridiculariza Marco, projeta nele a sua própria Sombra, que nega a fragilidade ou a derrota. A montanha não pode ser um lugar de lazer, apenas o altar onde Aava sacrifica a própria humanidade. Jung discute que o objetivo da vida não é apenas a ascensão, mas a preservação da totalidade. Não é spoiler imaginar que alguma grande estrutura precisa ruir para que Aava reveja por que está nesta jornada.
Mas para falar sobre isso, precisarei contar spoilers importantes de Cairn.

O monte Kami era habitado por uma civilização chamada Troglodita, que vivia nas cavernas da montanha, estudava as rotas de escalada e tinha como objetivo a ascensão; mas até mesmo eles, que eram adaptados para viver naquele ambiente, desistiram da escalada. A decisão foi tomada pelos Trogloditas para que não entrassem em extinção, o que permitiu que mantivessem vilas espalhadas em vários postos de observação do Kami. Quando Aava discute com Marco, ela já sabia disso.
Aava é incapaz de dizer por que está subindo a montanha.
Quando Naomi, sua companheira, envia mensagens perguntando-se por que você está fazendo isso, Aava se estressa por não conseguir encontrar uma resposta. Naomi também diz que o gatinho delas, o Capinha, não está muito bem, tendo de ir ao veterinário com uma certa frequência.
Enquanto Aava toma uma sopa de missô com Marco, ela pergunta a ele qual é o seu objetivo ao subir a montanha, já que ele começou pensando em desistir. Marco responde que este é o propósito da vida: divertir-se por escalar todos os dias e, quando estiver cansado, voltar para o seu trailer e assistir a um show de TV no seu notebook enquanto se prepara para a próxima escalada. Marco também pergunta por que estamos fazendo isso. Aava responde: "Porque o melhor sentimento de liberdade, prazer e significância que já senti foi quando superei os meus limites. Os momentos são fugazes quando estou nas montanhas... mas eu sou a montanha". A resposta é tão poética quanto vazia. Marco entendeu muito bem isso e, em tom de ironia, diz que a motivação dela é bem original.
Este é um ponto de equilíbrio muito importante na jornada. Como jogador, eu também fiquei me perguntando a razão da escalada. Eu achava que Aava estava tentando fugir de algo, talvez até da morte do Capinha (eu também acho que subiria o Everest para evitar lidar com a morte dos meus gatos). Mais à frente na jornada, o Capinha realmente precisou partir para que nossa personagem admitisse que não faz a mínima ideia de por que quer tanto chegar ao topo da montanha. A crise de Aava é intensa: ela quebra a antena do seu Climbot quando recebe a notícia sobre o gato e, mais tarde, quebra o rádio de outro alpinista quando finalmente admite que não sabe o motivo.
Admitir não saber o motivo é a primeira vez que Aava olha para si e enxerga sua Sombra. O momento é tão dolorido que o jogo realmente nos faz escolher entre tentar chegar ao topo ou descer a montanha com Marco.

Embora nossa protagonista tenha dificuldade de olhar para si, nós, como jogadores, olhamos e cuidamos dela o tempo todo. Precisamos cuidar de sua alimentação, hidratação, temperatura e fadiga. Precisamos olhar para as mãos constantemente para checar os esparadrapos e machucados, repondo os curativos sempre que necessário. Compostamos o lixo que o Climbot transforma em pó de magnésio, essencial para garantir boa aderência em superfícies mais lisas. Não são somente os cairns empilhados ao longo da trilha que nos lembram que a morte é iminente; é a própria vulnerabilidade humana que nos faz ter o cuidado para seguir a jornada e pensar em qual decisão tomar. O Ego pode até ser capaz de escalar a montanha, mas somente o Self pode habitá-la.
No final, antes de podermos tomar a grande decisão, Marco tenta nos convencer a descer a montanha; Aava informa que a montanha está no fundo de sua alma. Marco discorda, dizendo: "Acho que a montanha está na sua cabeça, como uma doença te consumindo. Mas você pode se curar se quiser".
Escolher descer a montanha não te impede de continuar a escalada quando você realmente estiver pronto. E isso não vale só para o jogo.

O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.








