Protocolo psicoeducativo e anticapacitista para autorrepresentação no Espectro Autista
- Pedro Anacleto
- 17 de abr.
- 6 min de leitura
Atualizado: 5 de mai.
Em função dos déficits persistentes na comunicação e interação social, a comunidade autista enfrenta uma constante repressão e marginalização, seja pela própria dificuldade em desenvolver vínculos, seja pelo ciclo de rejeição que vem de uma falta de estrutura psicoeducacional do mundo moderno.
A história manicomial recente; a ideia enraizada de que pessoas com transtornos psicossociais são perigosas; as crenças produtivistas do capitalismo moderno, que desrespeitam os limites neurofisiológicos dos corpos divergentes; e a patologização da diferença são apenas algumas bases que definem o que chamamos de capacitismo estrutural. Campbell e Macmillan (2009), no livro Contornos do Capacitismo, conceituam o capacitismo estrutural como "a construção social de corpos deficientes como sujeitos inaceitáveis, desvalorizados e anormais".
Por se tratar de uma deficiência invisível que se manifesta de formas aparentemente subjetivas, vivemos, no autismo, uma desinformação generalizada de como é o espectro, afetando nossa inclusão social e até mesmo a aceitação do próprio diagnóstico. Alguns entendem que autistas são incapazes de falar; outros compreendem que autistas falam, mas não são eficientes para a realização de uma palestra ou para responder por si mesmos. É provável que você conheça alguém que acredite que uma pessoa é "bonita demais" para ser autista ou que "todo mundo é um pouco autista" porque apresentam alguma dificuldade e/ou peculiaridade social ou sensorial. Não parecer autista é uma condição que a maioria de nós vivencia, pois não manifestamos os estereótipos normativos já estruturados pela maioria alística.
A compreensão de si mesmo para autorrepresentação
O conjunto de critérios diagnósticos que define o Transtorno do Espectro Autista engloba características que se manifestam de acordo com o contexto e o desenvolvimento do indivíduo. O primeiro critério confirma isso: "Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social anormal e dificuldade para estabelecer uma conversa normal a compartilhamento reduzido de interesses, emoções ou afeto; a dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais".
Eu convido você a voltar para si e entrevistar o seu Eu:
Quais situações em que eu tenho dificuldade de compreender as emoções e reações dos outros?
Consigo interpretar como as minhas emoções afetam o modo que eu respondo ao ambiente?
Tenho algum comportamento social que é visto como estranho ou inadequado?
Em quais condições eu consigo tomar iniciativa para estabelecer interações sociais?
Quando alguém vem conversar comigo, como normalmente eu reajo emocionalmente, sensorialmente e cognitivamente?
Consigo manter uma conversa sobre interesses diferentes dos meus? Se sim, isso tem algum custo para mim?
Vale a pena fazer esse exercício com todos os critérios diagnósticos do autismo e qualquer outro transtorno que tenha como comorbidade. Destrinchando a descrição de cada um deles, perguntando para si, respondendo à forma como isso te afeta e compreendendo também as partes que não te afetam. O apoio terapêutico neuroafirmativo e das pessoas que compõem sua rede de suporte neste exercício é recomendado.
Acesse os critérios diagnósticos clicando aqui.
É importante construir, com a ajuda da sua rede de suporte, um domínio sobre sua manifestação dos critérios diagnósticos. Informar de forma subjetiva: "Tenho dificuldades na interação social e sensibilidades sensoriais", por mais que atenda aos critérios do autismo, minimiza a complexidade e o impacto do espectro em algo que pode ser interpretado como "normal", pois qualquer pessoa pode apresentar timidez ou rejeição a algum som ou textura, por exemplo.
É possível começar a desestruturação do capacitismo através da autoafirmação objetiva sobre as manifestações do autismo.
Psicoeducação e comunicação objetiva
A estrutura da sociedade é desenhada para atender a uma norma conforme a sua cultura. A falta de acesso à informação, sobretudo à psicoeducação, é uma das bases que estabelece o capacitismo. Se a resposta à violência discriminatória também for violenta, a população autista será ainda mais segregada da população alística.
Se, ao informar que é autista, alguém pergunta como isso te afeta ou o que isso significa, mesmo que ela reproduza desinformação e preconceito, é provável que haja um interesse genuíno em se informar. Para responder a esta pergunta, recomendo relacionar um critério do Grupo A (déficits persistentes na comunicação social e na interação social) com um critério do Grupo B (padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades e reatividade sensorial) para o seu contexto pessoal, somado a um prejuízo claro.
Segue um exemplo pessoal:
Sempre que vou a reuniões familiares ou de amigos, não consigo interagir bem com as pessoas, mesmo tendo intimidade com elas. Só consigo falar alguma coisa se alguém vier conversar comigo. O estresse de ter que interagir faz com que os sons fiquem confusos e a luz pareça mais forte; mesmo que eu aparente estar bem no ambiente, é provável que eu machuque minhas unhas e minha boca e me sinta esgotado por dias.
É importante também entender como a diferença entre uma interação estruturada (que favorece a função executiva) e uma desestruturada (que provoca a disfunção executiva da fala ou da interação) afeta a sua individualidade atípica. Se você vai dar uma aula ou precisa solicitar um serviço ou ajuda, pode ser mais fácil iniciar a interação do que estar em um ambiente em que qualquer pessoa pode falar sobre qualquer coisa, como uma confraternização do trabalho.
Exemplo:
Eu consigo interagir relativamente bem em ambientes que são dedicados aos meus interesses restritos: se vou a um evento de Final Fantasy (série de videogame), é menos desgastante iniciar uma interação. Mas, se vou a um evento sobre videogames em geral, mesmo sendo apaixonado por jogos diversos, dificilmente vou conseguir iniciar interações com desconhecidos.
Um evento específico de Final Fantasy é estruturado. Um evento amplo de vídeogames é desestruturado.
O acesso à psicoeducação deveria ser um direito básico e constitucional. Assim, ambientes laborais, educativos, comerciais e normativos seriam obrigados a informar sobre saúde mental e neurodiversidade para além do atendimento preferencial.
Enquanto este acesso for limitado àqueles que fazem terapia, cabe a nós aprendermos como informar ao outro a maneira como nossa condição nos afeta ou a nossa garantia sobre algum direito. O uso do cordão de quebra-cabeças ou de girassol pode dar a sensação de segurança ao entrar em uma fila preferencial sem ser questionado. Caso aconteça, munir-se da fala "Eu tenho este direito; você precisa de comprovação?" é um empoderamento necessário para quem vive uma deficiência invisível e opta por não se identificar publicamente. Na dificuldade de falar, basta abrir a carteira e exibir a CIPTEA ou o laudo médico.
Rede de suporte profissionalizada e neuroafirmativa
Terapias funcionais e de reabilitação são as mais recomendadas pelos médicos após diagnosticarem uma pessoa autista. A Terapia Ocupacional trabalha no manejo das funções executivas, auxiliando na construção de rotinas e na realização de atividades que emancipam a percepção de si e ajudam a regular tanto o emocional quanto o sensorial. A Fonoaudiologia atua na compreensão social, trabalhando as habilidades de comunicação e tratando transtornos relacionados ao processamento auditivo. A Fisioterapia auxilia na consciência corporal, na adequação de posturas compensatórias e no manejo da hipermobilidade articular, comum no transtorno.
Para os processos de regulação emocional e enfrentamento de desafios cotidianos, as psicoterapias de base científica e comportamental são as mais indicadas. A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha diretamente na psicoeducação, ajudando a pessoa a compreender como os pensamentos influenciam emoções e comportamentos, enquanto a Dialética Comportamental foca na regulação emocional e na tolerância à frustração.
Terapias simbólicas, holísticas e integrativas relacionam corpo, mente e espírito para desenvolver a autorrepresentação e o autoconhecimento alinhados à singularidade do sujeito — como a Psicologia Analítica, que trabalha os símbolos e arquétipos para a compreensão do Self e o desenvolvimento de uma identidade pessoal. A Psicanálise foca na subjetividade do desejo, revisitando a história pessoal para ressignificar traumas. Práticas como Tarô Terapêutico, Arteterapia, Mindfulness, Musicoterapia e Aromaterapia ajudam no aterramento e na expressão pessoal sem necessariamente exigir o contato verbal. Participar de grupos formados exclusivamente por pessoas autistas também ajuda a desconstruir preconceitos e a compreender a si mesmo através do processo de corregulação.
Receber o diagnóstico de autismo é apenas o início da jornada em busca da autocompreensão e da autorrepresentação. Precisamos desestruturar o capacitismo internalizado que nos impede de aceitarmos o diagnóstico quando o recebemos. Assim, podemos validar a própria forma de processar o mundo e reivindicar o espaço que merecemos na sociedade.
A MELHOR FORMA DE COMPREENDER O AUTISMO É OUVINDO PESSOAS AUTISTAS!
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O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.









