O espectro da comunicação na pluralidade autista
- Pedro Anacleto
- 21 de mar.
- 4 min de leitura
O Transtorno do Espectro Autista pode afetar as pessoas de formas muito distintas. Até 2013, antes da implementação da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), o autismo era uma das condições que compunham a categoria dos Transtornos Globais do Desenvolvimento.
Na antiga classificação, identificava-se o Autismo Clássico, ou Transtorno Autista, com característica marcante no atraso do desenvolvimento da fala; a Síndrome de Asperger, que se diferenciava por não apresentar atraso na fala, mas sofria com desafios na comunicação e interação social; o Transtorno Global do Desenvolvimento sem Outra Especificação, também chamado de autismo atípico, que era usado quando a pessoa apresentava prejuízos significativos na interação social e comunicação, mas não atendia aos critérios do Autismo Clássico ou Asperger; e o Transtorno Desintegrativo da Infância, que acontecia quando a criança tinha um desenvolvimento típico até cerca de 3 anos de idade, mas sofria repentinamente uma perda considerável das habilidades sociais, motoras e de linguagem já adquiridas. Com a atualização do DSM para a quinta edição, os critérios diagnósticos passaram a considerar essas condições, trazendo para o autismo a definição de espectro.
Habilidades sociais e interações não verbais no Transtorno do Espectro Autista
O artigo Comunicação Não-Verbal na Psicoterapia estima que até 65% da comunicação humana aconteça por meio de comportamentos não verbais. De acordo com o DSM-5-TR, publicado em 2023, o autismo tem, por definição, déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social, variando por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidade no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso de gestos, a ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal.
A compreensão destes déficits pode partir de um pressuposto de que autistas não possuem habilidades sociais, entretanto, com a compreensão mais adequada do diagnóstico e relatos de pessoas autistas, compreende-se que autistas possuem habilidades sociais preservadas na maioria das vezes, entretanto, manifesta essas habilidades sem seguir as regras sociais normalmente impostas como habilidades sociais.
Uma norma social geralmente se refere a algum comportamento que a sociedade ou a cultura torna "normal". Espera-se que todos compreendam e adiram automaticamente a essas regras não escritas e divergir da norma pode ser considerado ofensivo. As normas são culturalmente vinculadas, portanto, pessoas de diferentes culturas podem ter conjuntos específicos de normas. Em alguns casos, o que é considerado norma social em um país pode ir contra as normas sociais em um país diferente.
O DSM-5-TR informa que o transtorno não impede da pessoa autista de suprimir comportamentos repetitivos e estereotipados em público, e que prejuízos comunicativos como manifestação atípica do contato visual, ausência de compartilhamento de interesses, linguagem corporal exagerada e outros comprometimentos podem ser mascarados através de um esforço ativo da pessoa autista, com um custo elevado da sobrecarga cognitiva, emocional e sensorial. Não seguir ou ter dificuldades de compreender as normas sociais influencia no desenvolvimento de amizades unilaterais, busca de atividades solitárias de autorregulação e rejeição constante dos outros.
O olhar nos olhos durante uma interação pode significar atenção e interesse para uma pessoa típica. Uma pessoa autista, entretanto, pode lidar com sobrecarga sensorial e desconforto com o olhar, afetando sua atenção e atrapalhando a interação adequada. Isso não afeta a capacidade de comunicação entre as duas partes, mas pode afetar o vínculo que se forma entre elas, pois há um rompimento implícito de normas sociais culturalmente impostas.
O ciclo de rejeição e comunicação inclusiva no autismo
A comunicação inclusiva para pessoas autistas demanda o reconhecimento de que alguém pode se comunicar de formas diferentes do esperado por determinada cultura, e, ainda assim, validar esta forma e respeitar ela como uma maneira legítima de se comunicar. É importante destacar aquilo que é falado, de forma clara, literal e direta, sem exigir da pessoa autista a interpretação não verbal em alguma interação.
É preciso entender que no espectro, uma comunicação em que a fala é monótona não necessariamente significa apatia sobre o assunto. A literalidade e a comunicação direta não necessariamente significam grosseria. A monopolização de conversas em torno de interesses restritos não significa egocentrismo ou falta de interesse no outro. O uso de movimentos estereotipados, como pernas inquietas, não necessariamente significa ansiedade para sair daquela interação.
Autistas possuem o desejo de estabelecer vínculos preservado, mas a dificuldade na integração considerada adequada entre a comunicação verbal e não verbal influencia no interesse social ao longo da vida. A rejeição, a sensação de que comportamentos precisam ser corrigidos, e a percepção de não pertencimento provocam o isolamento social, prejudicando o desenvolvimento de habilidades que resultam em abordagens atípicas que podem parecer invasivas ou agressivas, gerando um ciclo de prejuízo e rejeição.
Promover uma comunicação verdadeiramente inclusiva exige um deslocamento da responsabilidade. Em vez de esperar que a pessoa autista se adapte às normas sociais, cabe àqueles que convivem com o autista flexibilizar as próprias interpretações: aceitar uma comunicação mais verbal e literal, validar formas atípicas de expressão e reforçar a existência do vínculo apesar das distâncias e diferenças.
A MELHOR FORMA DE COMPREENDER O AUTISMO É OUVINDO PESSOAS AUTISTAS!
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