O arcano da Força, a Anima, e como Street Fighter me ajudou a lidar com a frustração
- Pedro Anacleto
- 16 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de fev.
Nota: este post faz parte de um projeto pessoal que busca relacionar experiências vividas por mim com videogames, Tarô e Psicologia Analítica Junguiana. Neste projeto, associarei um jogo ou franquia dos videogames com cada Arcano maior do Tarô, tendo como base o baralho Rider-Waite.
O ano de 2025 foi muito simbólico para mim. Talvez "simbólico" seja a palavra que eu uso aqui para substituir o termo "difícil", porque foi... e como foi. Entretanto, tal dificuldade não foi privilégio deste ano, e foi no simbólico que eu consegui tomar decisões que eu ainda não sou capaz de mensurar o impacto na minha vida.
Eu iniciei o ano em um burnout diagnosticado, pois eu vinha de um ciclo de trabalho que juntava o CLT, os atendimentos em terapia analítica, o grupo dos Encontros Atípicos, criação massiva de conteúdo na internet e a faculdade de Terapia Ocupacional. No final de 2024, (quase) tudo teve que parar. Fui demitido, tranquei a faculdade de TO, muitos dos meus atendimentos foram encerrados e diminui consideravelmente a frequência dos conteúdos nas redes sociais.
Em 2025, eu precisava me curar.
Só que é difícil se curar quando você não ganha dinheiro o suficiente para pagar suas contas básicas e você vê uma das pessoas que você mais ama lutando contra um câncer, sem que você consiga fazer nada sobre isso. Eu comecei a rever toda minha vida e eu entrei em crise.
Quando você está em crise, o foco se torna o sofrimento e você para de enxergar todas as outras coisas que estão acontecendo ao seu redor. Quando percebi, algo do meu diagnóstico de autismo tinha mudado todas as minhas relações. Eu estava apenas atendendo pessoas autistas; minha terapeuta e u médique que me atendem são autistas; todas as pessoas com quem eu mantinha contato eram autistas e eu estava começando a me relacionar com uma pessoa autista. Eu entendia que o autismo fazia parte da minha vida, mas, naquele momento, o autismo se tornou algo normal.
A Força e minha reconexão com a Anima
De acordo com os conceitos da psicologia junguiana, a Anima personifica as tendências psicológicas femininas na psique do homem. A relação é hereditária, formada ainda no ventre da mãe, e é a principal responsável pela forma como nos conectamos com os nossos sentimentos.
Quando a Anima não está bem integrada, a agressividade, a desregulação e as crises tomam conta. No tarô, a Anima aparece pela primeira vez através da A Sacerdotisa: o Ego masculino busca a luz da razão, enquanto a Sacerdotisa personifica o poder da água, do inconsciente, sendo portadora de uma sabedoria divina e estabelecendo um equilíbrio em meio à dualidade.
Mas o arcano do tarô que melhor representa a integração da Anima, é A Força.

A Força, do ponto de vista junguiano, atua como mediadora do ego para a exploração das forças instintuais de si mesmo. De acordo com Sallie Nichols, no livro Jung e o Tarô, a figura feminina deste arcano simboliza a coragem e o valor desconhecido do seu "Eu" que é capaz de entrar em contato com a parte sombria e domar a natureza animal que existe ali.
Eu estava sofrendo muito com um processo de mudança que não desejava, mas que via como necessária. Nessa mudança, eu voltaria para minha cidade natal, e isso era um fator de medo e desregulação que me provocou crises tão intensas que parei na UPA algumas vezes. Lembro-me de uma sessão de terapia em que a minha psicóloga disse que eu precisava integrar minha mãe em mim, e me tornar "mãe de mim mesmo".
Essa fala veio após um sonho que foi um divisor de águas na minha vida...: Eu assumi a aparência de Hel, deusa da mitologia nórdica que tem a metade do corpo vivo e a outra metade em decomposição. Eu era governante de uma grande mansão do submundo que acolhia todos aqueles que precisavam de um descanso pós vida. Apesar de ser sombrio e representar o que as pessoas chamariam de inferno, minha casa era projetada para as necessidades de todos que ali habitavam, até mesmo Deus, que ia até minha morada para descansar das tarefas de governar o paraíso. Tal paraíso me prometia tudo de que eu precisava, mas era envolto por guerras e conflitos inesperados. Portanto, o melhor lugar para mim, deveria ser o meu próprio lar.
Este foi um resumo do sonho que foi o estopim para eu desistir da mudança para minha cidade natal e traçar um novo rumo pra minha vida. Para isso, eu também precisava integrar essa parte feminina em mim... algo que foi apoiado em meu relacionamento, sustentado em minha terapia e aconselhado em minhas amizades. As crises de pânico foram cessando com o tempo, e a ideia da morte passou a ser algo para o qual eu quero me preparar para lidar, não um sentimento que me sequestra. Depois de tantas crises, da preocupação da morte de parentes ou dos meus gatos; depois de bater a cabeça caindo durante um desmaio gerado por estresse; depois de sonhos constantes envolvendo a morte, eu simbolicamente morri e iniciei uma fase completamente nova da minha jornada.
No final do ano, eu precisava de umas férias. Pensei em usar as semanas do Natal e do Ano-Novo para descansar e me dedicar a um jogo novo; comprei o Arc Raiders para computador, que seria o jogo das minhas férias, e todos os meus planejamentos foram por água abaixo. No primeiro dia de férias, a placa-mãe do meu computador parou de funcionar.
Street Fighter e A Força no meu processo de lidar com a frustração
Eu sempre gostei de jogos de luta, mas nunca me desenvolvi bem com eles. Apesar de jogar videogames desde a infância, os jogos de luta exigem de uma precisão rápida e um controle que eu nunca consegui lidar muito bem. Antes ainda do meu computador parar de funcionar, eu havia tentado jogar os jogos clássicos da coletânea de 30 anos de Street Fighter, pois eu já tinha alguma afeição por esses jogos quando criança. A experiência, no entanto, foi bem frustrante. Mesmo na dificuldade base, eu mal conseguia avançar do segundo adversário em nenhum jogo da coletânea, e logo percebi que eu não estava em um momento da minha vida em que queria lidar com a frustração.

Eu jogo videogames para me ajudar na autorregulação, e a principal ferramenta que eu estava usando para isso naquele momento era o computador. Quando ele parou de funcionar, a frustração me colocou num patamar de ansiedade que me deu a sensação de ter perdido as minhas férias, pois eu precisei me adaptar a uma rotina completamente nova e não planejada. Fora o computador, eu tenho um console Playstation e o único jogo nesta plataforma que eu conseguia pensar em jogar era a coletânea de 30 anos de Street Fighter. A rigidez cognitiva do autismo nem sempre me deixa jogar aquilo que eu penso que quero; às vezes, eu tenho que jogar aquilo que preciso.
Para eu lidar com a frustração naquele início de férias, parece que eu precisava vencer outra frustração: a de perder no "joguinho de luta". Assumi que precisava lidar com a frustração da perda e consegui vencer Street Figher II: The World Warrior; depois, parti para Street Fighter III: New Generation; venci, então, o primeiro Street Fighter (que, reza a lenda foi o primeiro jogo que eu joguei em uma máquina de fliperama) e, finalmente, me vi me divertindo muito com Street Fighter Alpha: Warrior's Dreams e Street Fighter Alpha 2.
Para lidarmos com as emoções, precisamos dar a atenção que elas merecem. Isso exige uma coragem tão grande quanto a que é representada pelo tarô pela mulher fechando gentilmente a boca do leão em A Força. A consciência não lida muito bem com a força presente em nossa Sombra, sendo um papel da Anima fazer essa mediação. A saga Street Fighter traz exatamente essa reflexão em seu enredo: Ryu é um campeão mundialmente reconhecido, mas precisa lidar com muita disciplina para dominar a energia sombria Satsui no Hado sem ser tomado e consumido por ela. Conseguir finalizar esses jogos da coletânea de Street Fighter foi o que me mostrou que tenho forças para não ser dominado pela frustração.
Apesar dos percalços, 2026 iniciou com uma energia muito diferente. Me sinto renovado para a realização dos atendimentos; iniciei também atendimentos voltados ao Tarô Terapêutico; finalizei este site que estava planejando há meses; em breve realizarei uma nova mudança de lar, que me gera muitas expectativas de melhoria na qualidade de vida, e também consegui me matricular para continuar a faculdade de Terapia Ocupacional.
É claro que tudo isso gera muita ansiedade e noites sem dormir direito. A diferença é que eu não me sinto necessariamente "forte" para conseguir lidar com todas essas coisas. Eu me vejo vulnerável porque, hoje, consigo enxergar muito melhor os meus déficits e limites. Aceitar essa vulnerabilidade me ajuda a voltar meu foco para criar as estruturas e recursos necessários para que eu consiga prosseguir.
Um passo de cada vez, tendo a paciência que for necessária para fechar a boca de um leão faminto.

O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.








