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O papel das crises e dos comportamentos atípicos no Transtorno do Espectro Autista

  • Foto do escritor: Pedro Anacleto
    Pedro Anacleto
  • 4 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 9 de mar.


Quando as nossas emoções e nossa fisiologia estão bem reguladas, temos mais facilidade para aprender com as outras pessoas e nos relacionar com elas. Um sistema neurológico típico filtra o excesso de estímulos e sinaliza adequadamente quando estão com fome, cansados ou quando é necessário se proteger de algum perigo. No Transtorno do Espectro Autista (TEA) os desafios emocionais e psicológicos do cotidiano podem ser desproporcionais, tornando a nossa população mais vulnerável. As sensações de desconforto, ansiedade e confusão são maiores no autismo do que para outras pessoas. E pode ser difícil lidar sozinho com esses desafios e sensações.


A dificuldade de regulação emocional e fisiológica deve ser vista como uma característica essencial que define o autismo. Tendo a capacidade de autorregulação prejudicada, nós, autistas, apresentamos maiores dificuldades na comunicação, ficamos mais sensíveis às imprevisibilidades e estímulos sensoriais do ambiente e nos preocupamos excessivamente com as coisas incertas. Para algumas pessoas, o histórico de experiências estressantes e traumáticas acarreta complicações adicionais.


Há também as dificuldades associadas ao sistema vestibular e interoceptivo, como a excessiva sensibilidade ao toque e aos sons, perturbações motoras e de movimento, privação do sono, alergias e problemas gastrointestinais.


Essas características e dificuldades podem ser experienciadas pela população neurotípica de tempos em tempos. Qualquer pessoa pode se sentir perturbada porque a sua rotina matinal de café, jornal e banho foi interrompida por um acontecimento inesperado. É comum evitar pessoas e lugares quando os eventos são associados a incidentes desagradáveis ou estressantes. No autismo, entretanto, o limiar de tolerância é muito mais baixo, dispondo de um número menor de estratégias inatas de enfrentamento, aumentando o sofrimento emocional e manifestações físicas deste sofrimento.


Sobrecarga sensorial e opressão emocional no autismo resultando no meltdown e shutdown


O artigo “Alterações sensoriais no Transtorno do Espectro Autista (TEA): implicações no desenvolvimento e na aprendizagem” compila estudos que apontam que 95% das crianças com diagnóstico de autismo apresentam algum grau de disfunção no processamento sensorial. Perceber um estímulo sensorial com maior intensidade influencia diretamente na relação da pessoa com o mundo ao redor: sua atenção pode ser prejudicada, tal qual as interações sociais. Uma desregulação sensorial faz com que um simples estímulo, como o toque físico ou a iluminação do ambiente provoque reações como dor e desconforto.


Um efeito colateral comum de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos é o aumento da sensação de calor, que, somado as alterações sensoriais do autismo, podem acarretar crises sensoriais e emocionais, influenciando na adesão ao tratamento.


A opressão emocional é muito frequente no autismo. Seja por experienciarmos as emoções de forma exacerbada, seja por termos dificuldades em nomear ou identificar elas corretamente. Uma crise bastante conhecida no autismo é o meltdown, um colapso provocado pela opressão emocional quando não se é mais possível lidar com os sentimentos ou com as crises sensoriais. Sua manifestação pode parecer violenta, seja através de gritos, da heteroagressão ou do autoflagelo; e também através de crises de choro e reações psicossomáticas.


As crises no autismo tem função autorregulatória
Prue Stevenson e sua obra: Don't fear the Meltdown (Não tema o Meltdown)

Após um período de opressão emocional, cognitiva ou sensorial, é comum experienciarmos o desligamento de sistemas do corpo. Chamado na comunidade de shutdown, o desligamento pode afetar o movimento do corpo, a capacidade de fala e o processamento emocional e sensorial de formas distintas. As funções executivas também são afetadas nos desligamentos, aumentando a rigidez cognitiva e evidenciando dificuldades de executar atividades de vida diária como alimentação e higienização pessoal.


É importante lembrarmos que as crises são ativadas como um botão de emergência para a regulação após um momento ou período prolongado de opressão cognitiva, sensorial ou emocional. A crise não deve ser demonizada ou suprimida e é função de qualquer um que acompanhe uma pessoa autista cuidar para que ninguém seja machucado no processo, sem culpabilizar a pessoa que chegou no colapso.


Outras estratégias de enfrentamento e comportamentos reguladores no TEA


A maioria dos comportamentos rotulados de "comportamentos autistas" não é sobre a deficiência psicossocial associada ao transtorno. Os comportamentos ritualísticos, os interesses restritos e os movimentos estereotipados são estratégias que usamos para nos sentirmos mais regulados do ponto de vista emocional e fisiológico.


Usar rituais e hábitos de autorregulação é uma característica inerente ao ser humano. É uma habilidade adaptativa, que permite acalmar a mente e o corpo para lidar com situações estressantes. No autismo, esses comportamentos podem ser exacerbados e atípicos para o olhar neurotípico, como determinados padrões de movimentos e fala repetitiva (ecolalias), pular, andar em circulo, abanar as mãos, o ato de segurar ou alinhar objetos de apego emocional, que podem ser manifestações positivas de emoções e estratégias para aumentar a sensação de previsibilidade. Até a proximidade com determinadas pessoas pode servir como estratégia de regulação.


Culturalmente as estereotipias são vistas com uma conotação negativa e a correção destes comportamentos ainda são buscados em abordagens terapêuticas. Muitos autistas desenvolvem ao longo da vida a capacidade de mascarar esses comportamentos, que, por um lado garante mais aceitação do ponto de vista social, mas, por outro, aumenta a sensação de sobrecarga.


Graças à conquista pela autorrepresentação na comunidade autista, grande parte das estereotipias e outros comportamentos associados ao autismo começam ser repensados como uma função adaptativa. Comportamentos ritualísticos e estereotipias no autismo também podem ser usados como acesso a criatividade e prazer pessoal, ajudando a pessoa a focar em uma atividade e regulando as emoções quando expostos ao medo, tédio e ansiedade.

A MELHOR FORMA DE COMPREENDER O AUTISMO É OUVINDO PESSOAS AUTISTAS!


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© 2026 por Pedro Anacleto

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