Percepções sensoriais no autismo e o desafio da consciência corporal
- Pedro Anacleto
- 11 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de fev.
Respostas incomuns aos estímulos sensoriais são descritas desde o começo da história oficial do autismo. Tanto Leo Kanner (1943) quanto Hans Asperger (1944) descreviam reações consideradas bizarras de seus pacientes com relação aos sons, toque, cheiros, estímulos visuais e paladar.
Embora o critério diagnóstico que aponta problemas sensoriais não seja obrigatório para a definição do transtorno, é possível encontrar na literatura uma estimativa de que as alterações e disfunções sensoriais atinjam entre 74% e 95% da população autista.
Nas últimas décadas, diferentes concepções sobre o autismo consideram anormalidades na percepção sensorial como a base dos principais sintomas do transtorno, implicando, inclusive, no desenvolvimento da linguagem e nos processos de aprendizagem. O critério diagnóstico, de acordo com o DSM-5-TR considera a hiper ou hiporreatividade aos estímulos sensoriais ou interesses incomuns por aspectos sensoriais do ambiente (indiferença aparente a dor/temperaturas, reação contrária a texturas e sons específicos, fascinação visual por movimentos ou luzes). Mas, de acordo com Ornitz e Ritvo (1968) o autismo é caracterizado por uma flutuação entre os estados aumentado e diminuído de ativação sensorial, resultando em uma falha na modulação sensorial e em uma experiência perceptiva instável. Segundo este modelo, os sintomas primários do autismo são os problemas na modulação sensorial, que causam os prejuízos de interação social, de comunicação, de linguagem e de comportamento.
Apesar da flutuação sensorial, os padrões de processamento sensorial geralmente se mantém o mesmo ao longo da vida, por exemplo:
“Eu sou hipossensível aos estímulos olfativos. Isso não quer dizer que eu não sinta o cheiro das coisas, eu sinto, mas na maioria das vezes sou incapaz de processar essa informação. Não consigo relacionar o perfume às pessoas e não sei identificar se uma roupa está imprópria para o uso pelo cheiro, ou se um alimento está estragando. Geralmente os cheiros não me incomodam, porque eu não percebo, mas às vezes eu entro em pânico porque o vizinho usou um tempero diferente na comida e eu penso que pode estar acontecendo algo perigoso, como gás vazando ou algo queimando, mas eu não sou capaz de identificar isso sozinho. O padrão de hipossensibilidade aos estímulos olfativos me acompanha por toda a vida, mas tenho crises pontuais que me deixam hiperreativo aos mesmos estímulos.” – Pedro Anacleto
Uma pessoa hiporreativa a um determinado estímulo sensorial, possui um alto limiar de reatividade, então é comum que ela busque sensações que estimulem tal sentido, enquanto uma pessoa hiperreativa possui um baixo limiar de reatividade, sendo mais sensível sensorialmente e evitando tais estímulos.
Padrões sensoriais comumente percebidos por autistas
Hipersensibilidade sensorial
“Um problema comum é a fala: a voz humana não é dolorosa, mas distrai horrivelmente, ela acaba com a minha concentração e pode parecer como uma tortura chinesa para mim.”;
“Ver uma mancha na superfície perfeita de uma colcha é perturbador.”;
“De modo geral, quanto mais leve for o contato, maior é o desconforto, e quanto mais firme, mais suportável e até prazeroso ele se torna.”
Sobrecarga sensorial
“Se estou escutando uma coisa e olhando para ela ao mesmo tempo, muita informação pode chegar aos meus ouvidos e olhos de uma vez, então eu toco em alguma outra coisa. Isso faz com que a informação comece a passar por outro sentido, pelo meu tato, deixando meus olhos e ouvidos descansarem.”
Estratégia de resposta
“Em ambientes estranhos eu me concentro nos padrões dos carpetes. Isso acalma a ansiedade que eu sinto de estar em um lugar desconhecido.”
“Em situações sociais, preciso constantemente me escorar em algo ou apoiar minhas costas numa parede, é como se aquele estímulo silenciasse os outros e torna a situação mais suportável.”
Experiências sensoriais prazerosas
“Existem alguns rituais pessoais que realizo simplesmente por prazer sensorial. Eles incluem movimentos ritmados e sons que eu faço para mim mesma. Eles enchem meu ser com um fenômeno sensual estimulante e ao mesmo tempo sereno.”
É importante ressaltar que esses relatos se originam de pessoas autistas com capacidade comunicativa preservada o suficiente para descreverem suas experiências sensoriais. Suas percepções não necessariamente correspondem às de outros autistas. Em relação aos prejuízos do transtorno do espectro autista, principalmente no que diz respeito à linguagem, a capacidade de relatar de forma precisa as experiências sensoriais pode ser limitada.
Alterações nas percepções de padrões sensoriais são frequentemente encontrados em relatos do dia-a-dia de pessoas não autistas. O que diferencia um grupo do outro é a intensidade e a frequência dessas experiências, que em nós, autistas parecem tão frequentes que podem tornar atividades diárias consideradas simples em atividades impraticáveis. Mas deve ser ressaltado também que a experiência autista em relação aos estímulos sensoriais nem sempre será prejudicial ou “defeituosa”, mas sim diferente e não convencional do ponto de vista alístico, e, quando bem compreendidas, podem ser trabalhadas para trazer benefícios reais para a pessoa autista, tanto do ponto de vista de regulação sensorial e emocional, quanto na sua capacidade de produção ou realização de atividades ocupacionais.
As alterações sensoriais no autismo, entretanto, vai além dos estímulos básicos, influenciando também na interocepção e na propriocepção.
Impactos da interocepção no Transtorno do Espectro Autista
A maioria de nós conhece os cinco sentidos básicos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Estes sentidos definem a forma como percebemos o mundo sensorialmente. Outros três sentidos, entretanto, são menos conhecidos, mas tão importantes quanto: o sentido vestibular, responsável pela orientação espacial, postura e equilíbrio; a propriocepção, que permite a realização de movimentos com precisão; e a interocepção, que ajuda a pessoa a entender o que está acontecendo dentro do corpo, como fome, sede, sensação de calor ou frio, fadiga ou bexiga cheia.
Em relação ao sentido vestibular, você já deve ter ouvido falar das mãozinhas de dinossauro ou formas atípicas de sentar, como o sentar em W. A propriocepção pode ser afetada pela dificuldade na coordenação motora fina, por exemplo. E a interocepção vai influenciar, inclusive, na capacidade de interpretar emoções. Não compreender este sentido pode tornar a autorregulação um desafio problemático para a maioria de nós autistas.
Compreender as sensações corporais pode ajudar a interpretar o que está acontecendo dentro do corpo, e tomar uma ação adequada para isso. Se sua bexiga estiver cheia, você precisa urinar. Se o coração está batendo rápido, você pode precisar respirar fundo algumas vezes para desacelerá-lo. Autistas podem ter dificuldades em entender essas informações do corpo. Podemos não conseguir identificar quando estamos sentindo dor ou fadiga. A coceira pode ser sentida como dor ou a dor pode causar cócegas. Podemos não ter a sensação de precisar defecar e segurar a evacuação, levando à constipação; ou achar que precisamos ir ao banheiro várias vezes para urinar, quando a bexiga nem está tão cheia.
A interocepção também afeta a interpretação das emoções. A emoção pode não ser percebida como ela realmente é, e pode ser extremamente difícil dar um nome pra ela. Isso chamamos de alexitimia. Se você não consegue se sintonizar com os sinais corporais que ajudam a interpretar as emoções, fica mais difícil identificá-las e tomar uma ação adequada para sua regulação. É importante reconhecer este aspecto, pois não sentir adequadamente as emoções afeta o comportamento de uma pessoa. Por exemplo, uma criança pode não reconhecer o medo porque não reconhece que músculos tensos, respiração superficial e coração acelerado são sinônimos de medo. A reação, portanto, é atípica. Medo pode ser interpretado como apatia, ansiedade como excitação ou hiperatividade. Essa falta de consciência interoceptiva pode explicar o comportamento explosivo (chamadas pela comunidade normalmente de crises de meltdown), pois muitas emoções só são sentidas quando elas se tornam muito intensas, provocando uma erupção.
Desafios interoceptivos também afetam a capacidade de autorregulação. Se você não sabe se está com fome, com sede ou com a bexiga cheia, pode se sentir desconfortável, apático ou estressado, mas não compreender o porquê. A frustração pode aumentar quando você não consegue explicar o que está incomodando.
Quando o sentido interoceptivo está prejudicado, certas respostas podem não ser reguladas. Por exemplo, esse pode ser o motivo pelo qual autistas adolescentes ou até adultos ainda faça xixi na cama ocasionalmente. Não se sentir “estranho” ou compreender tais alterações no corpo podem levar a um colapso. Pessoas autistas são mais sensíveis ao esgotamento e crises sensoriais por não perceberem que estão ultrapassando os seus limites.
Referências:
Texto adaptado diretamente do artigo PUC Rio – Problemas sensoriais no autismo e tradução livre com adaptações do post: Interocepção e Autismo: Desafios da Consciência Corporal do blog Autism Awareness Centre Inc
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