A dificuldade de interpretar o próprio corpo no autismo
- Pedro Anacleto
- 7 de ago.
- 3 min de leitura
É conhecida, através dos critérios diagnósticos para o Transtorno do Espectro Autista, a "hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (p. ex., indiferença aparente a dor/temperatura, reação contrária a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento)".
Embora essa alteração não faça parte dos critérios obrigatórios para a definição do transtorno, diversos estudos apontam que, na população infantil, entre 40% e 80% das crianças diagnosticadas com autismo apresentam alterações sensoriais. Na população adulta entrevistada, os números chegam a 90%. A alteração do processamento sensorial ou a definição do transtorno do processamento sensorial não indicam padrões específicos. Uma pessoa autista pode ter hiper ou hipossensibilidade sensorial, processar as sensações mais lentamente, não identificar as sensações ou precisar de muito estímulo.
A percepção sensorial também se altera ao longo da vida ou por contextos específicos. Crianças autistas que tendem a buscar mais estímulos sensoriais podem mudar de comportamento quando mais velhas, passando a evitar tais estímulos.
Impactos das alterações interoceptivas no Transtorno do Espectro Autista
Além do tato, olfato, paladar, visão e audição, as alterações sensoriais também afetam os sentidos interoceptivo, proprioceptivo e vestibular.
A interocepção é a capacidade de perceber sinais internos do corpo: se você está sentindo fome, sede ou vontade de ir ao banheiro. Acontece que as alterações na interocepção afetam diretamente a autorregulação emocional.
Reconhecer as emoções e identificar as sensações fazem parte da interocepção. A desregulação deste sentido altera a forma como a pessoa reage emocionalmente às situações, atrapalha a capacidade de descrever e identificar os sentimentos, pode confundir emoções com sensações físicas e, consequentemente, impedir um processo de autorregulação considerado adequado ou eficiente. O nome disso é alexitimia.
Se não compreendemos o que se passa dentro do nosso corpo, também desenvolvemos uma deficiência da confiança no Si-mesmo. A percepção da nossa própria identidade é afetada.
Quanto maior a alexitimia, maiores são as dificuldades para a autorregulação emocional, influenciando a dificuldade de tomar decisões, desenvolver vínculos sociais, procurar ajuda médica e aderir aos cuidados terapêuticos, incluindo o abandono de medicamentos controlados ou o uso abusivo de substâncias.
Vias para a autorregulação
Apesar do impacto que as dificuldades de interpretar os sinais do corpo podem causar na percepção da própria identidade, na socialização e na autorregulação, é importante compreendermos que existem ferramentas e atitudes adequadas para lidar com cada uma das situações que nos causam prejuízos. Essas ferramentas passam por vias estruturais, como a rede de apoio familiar ou o acompanhamento profissionalizado, mas precisam partir da autovalidação em relação ao diagnóstico ou às dificuldades encontradas apesar dele.
Ao acolher a própria neurodivergência, você cria espaço para o desenvolvimento de vínculos terapêuticos afirmativos e possibilita a criação de estratégias personalizadas de convivência com o próprio corpo:
Registrar e listar as atividades que geraram uma percepção positiva ajuda a criar um "cardápio" de interesses que podem ser acessados em momentos de desregulação;
Usar calendários digitais com lembretes personalizados ou alarmes ajuda no desenvolvimento de uma rotina para se alimentar, hidratar ou realizar outras atividades diárias;
Escrever ou usar outros recursos para registrar o que você pensa e como você se percebe ajuda a estruturar e mapear sensações sob a sua própria perspectiva.
É sempre importante lembrar que o seu processo de reconexão com o Si-mesmo não exige um funcionamento neurotípico.
Texto baseado nas referências:
A MELHOR FORMA DE COMPREENDER O AUTISMO É OUVINDO PESSOAS AUTISTAS!
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O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.









