Sobre os interesses sociais no autismo
- Pedro Anacleto
- 24 de jul.
- 4 min de leitura
Atualizado: 7 de ago.
Toda discussão sobre a forma como a pessoa autista processa a empatia e os déficits na reciprocidade socioafetiva criou o mito de que autistas não possuem interesse social. A dificuldade em iniciar novas amizades, manter esses relacionamentos e compreendê-los é parte da nossa deficiência, mas isso está longe de se relacionar com o desinteresse.
Nos critérios diagnósticos para o Transtorno do Espectro Autista, o item 3 do grupo A informa que autistas possuem "déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos; variando, por exemplo, de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas ou fazer amigos; a ausência de interesse por pares.".
O destaque na palavra "variando" define parte importante do espectro. Uma pessoa autista pode ter dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais, como, por exemplo, entender que determinado ambiente exige o uso de uma roupa social ou a necessidade de ajustar o tom de voz em um ambiente formal. Mas não necessariamente ela vai ter dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas, como o uso ou a compreensão de piadas internas para o desenvolvimento de vínculos. A ausência de interesse por pares pode estar presente pela dificuldade de compartilhamento de interesses pessoais, pelo rótulo de egoísta que é criado ao longo da vida e pela sensação de rejeição de quando um interesse pessoal é invalidado.
Mas a verdade é que, se os interesses são acolhidos e as dificuldades sociais são compreendidas, por trás de tudo o que define o transtorno encontra-se alguém que provavelmente só escolheu o isolamento para evitar as sobrecargas que as dificuldades sociais provocam.
A camuflagem social é uma forma atípica de demonstrar interesse
A camuflagem social, costumeiramente conhecida como “masking” pela população autista, é classificada em três tipos de acordo com o Questionário de Camuflagem de Traços Autistas (CAT-Q):
Compensação: composta por estratégias usadas para compensar dificuldades sociais e de comunicação, como, por exemplo, copiar o comportamento e as falas de outras pessoas, assim como criar um roteiro para uma interação social futura;
Mascaramento: composta por estratégias para esconder características específicas, como estereotipias, expressões corporais e faciais e outros comportamentos considerados atípicos, a fim de não demonstrar desregulação ou excitação;
Assimilação: composta por estratégias usadas na tentativa de aprender comportamentos considerados adequados em determinadas situações sociais para passar a impressão de que a interação social está sendo efetivada de forma natural. A assimilação representa tentativas de se misturar a situações sociais em que o indivíduo se sente desconfortável, sem deixar que os outros vejam esse desconforto. As estratégias dentro do fator assimilação incluem evitar situações sociais ou gerenciá-las com a ajuda de outras pessoas, juntamente com a percepção de não ser “você mesmo” durante as interações.
A camuflagem é uma estratégia de enfrentamento consciente ou inconsciente com o objetivo de assimilar e aprender comportamentos considerados “típicos” para compensar e camuflar as próprias características e dificuldades relacionadas ao transtorno. Embora a população neurotípica também faça uso de estratégias de camuflagem social, autistas e outros neurodivergentes tendem a se sentir esgotados ao se expor a situações que demandam essas estratégias.
A exposição constante ao esgotamento e à sobrecarga cognitiva provocada pelas demandas sociais pode diminuir a busca pela criação de vínculos ao longo do tempo, fazendo a pessoa autista voltar-se para atividades solitárias de autorregulação ou manter relacionamentos assíncronos e com baixo nível de manutenção social.
O que não suprime uma necessidade constante e muitas vezes silenciada de ter amigos. E, muitas vezes, esses amigos estão por perto, mas não compreendemos essas relações como amizades.
Sobre o compartilhamento de interesses
O próprio uso e a compreensão da linguagem podem afetar a nossa interpretação sobre as relações. Eu sempre entendi o conceito de amizade como um vínculo forte relacionado a interesses compartilhados; até por isso, na infância e na adolescência, as únicas pessoas que eu realmente considerava como amigas eram pessoas que compartilhavam dos mesmos interesses que eu e acabaram recebendo o diagnóstico futuramente. Mas havia um grupo maior de pessoas na escola que compartilhava brincadeiras, convites e presença em festas de aniversário e outros eventos na casa desses colegas. Lembro do meu pai me perguntando sobre chamar esses amigos para realizar alguma atividade e eu brigava com ele falando que não eram amigos, eram colegas.
Hoje compreendo que, no meio normativo, a presença constante e o compartilhamento de atividades (e não necessariamente de interesses) não se estabelecem como uma relação de coleguismo, e sim de amizade.
O modelo neurodivergente de amizade foca muito no vínculo profundo, estabelecido por uma visão de mundo compartilhada, enquanto o modelo neurotípico compreende a amizade pela frequência, pela presença física e pelo ritual social e cultural compartilhado no meio em que os indivíduos estão inseridos, seja o ambiente escolar, seja o ambiente laboral ou de atividades com propósitos pessoais.
Os déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos passam por esta barreira até mesmo linguística sobre o que define uma compreensão interna que impacta a nossa reciprocidade socioafetiva.
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O autor
Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.
Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.









