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Minha experiência com desapego de objetos e mudança de casa

  • Foto do escritor: Pedro Anacleto
    Pedro Anacleto
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Nota: este é um post de experiência pessoal através do ponto de vista autista e os comportamentos aqui relatados não necessariamente definem o transtorno. Para compreender o que define o transtorno, leia os critérios diagnósticos do DSM-5-TR.



Embora não seja um critério obrigatório para a definição do Transtorno do Espectro Autista a "Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo em relação a pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões rígidos de pensamento, rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo caminho ou ingerir os mesmos alimentos diariamente)" é um traço marcante na experiência da maioria das pessoas que vive o transtorno.


No momento em que redijo este texto, lido com uma mudança de casa, exigindo o encaixotamento de objetos e eletrodomésticos, adaptação da rotina durante o período de transição, manutenção de coisas essenciais esquecidas e o desapego de objetos que precisam ser doados ou descartados no processo.


Quando recebi o diagnóstico de autismo em novembro de 2022, eu também estava lidando com uma nova casa e um novo emprego, e tentava compreender o porquê de ser tão difícil me adaptar a essas mudanças. Naquele contexto, a pandemia da Covid-19 foi outro fator de estresse; todo mundo precisou lidar, direta ou indiretamente, com a morte de alguém próximo e aprender alguma coisa com o luto e a impermanência das coisas.


A relação entre a morte e a mudança vem da complexa realização pós-diagnóstico (e explicação das minhas dificuldades) de que a finitude é a essência da continuidade. Eu só posso saber o que permanece quando realmente preciso proteger algo da mudança enquanto ela está acontecendo. É na mudança que compreendemos as relações afetivas que se perpetuam e o apego eternizado por objetos de conforto que estão sempre à nossa vista, mas de que não havíamos realizado a importância.


Colocar um objeto de apego dentro de uma caixa, que será entregue para um desconhecido e transportado para um lugar completamente novo, exige uma resiliência cognitiva e emocional que pode parecer esquisita do ponto de vista alístico. Na minha cabeça, esse movimento descaracteriza o espaço que o objeto ocupava, altera minha percepção sobre o ambiente e quebra minha sensação de previsibilidade. O mesmo acontece quando preciso jogar fora ou doar algo a que eu associo qualquer possibilidade de uso ou apego emocional. Alguns autistas podem acumular objetos em razão do significado emocional deles ou pelas dificuldades cognitivas que envolvem a mudança, mas cabe dizer que não é comum a associação de Transtorno de Acumulação Compulsiva com o Transtorno do Espectro Autista.


O que tem me ajudado muito neste processo de mudança é jogar o recém lançado acesso antecipado de Slay the Spire 2. O primeiro jogo foi um grande companheiro em momentos difíceis da pandemia, e o segundo é um ponto de permanência no meio do caos do momento.


Comportamentos atípicos que experienciei após a mudança


Quando a mudança finalmente aconteceu, muita coisa precisava ser feita. Todo o processo de encaixotar objetos e desconfigurar o lar anterior precisou ser feito de forma reversa: desencaixotar, organizar, discutir, decidir, configurar. Apesar do estresse típico da mudança, um problema que eu parecia considerar maior do que todos foi identificado e precisava ser resolvido imediatamente: aparentemente, havia uma infestação de baratas na casa nova.


Parece que a infestação de baratas também estava em Slay the Spire 2.

Desenvolvi algo que vou chamar aqui de "hiperfoco reativo". Eu não poderia ocupar a casa enquanto as baratas a ocupassem. Matei as baratas que foram vistas, coloquei iscas com veneno e não conseguia pensar em outra coisa senão nelas. Por cinco dias, diante de qualquer vulto ou algo que esbarrasse em mim, eu achava que era uma barata. Tirei todas as gavetas dos armários e limpei cada canto que tinha fezes (e muitas) do inseto; descobri várias técnicas e tipos de venenos para dedetização, e minha mente só se acalmou quando dei conta de que venci a batalha.


Outro aspecto foram os pesadelos.


Sempre tive pesadelos quando me mudava para uma casa nova; desta vez não foi diferente. Sonhei com mudanças e revisitei muitas pessoas importantes ao longo da minha vida nos processos de mudança delas; era como se eu tentasse aprender algo com aquelas pessoas que nem fazem mais parte da minha vida. A alexitimia foi algo muito presente também. Embora eu não tenha me sentido exatamente estressado ou experienciado crises durante esses dias, tive meltdowns dormindo, sonhando com acessos de raiva e gritando algumas vezes durante a noite — emoções que eu não era capaz de acessar enquanto acordado.


Outro comportamento atípico foi a dessensibilização sensorial. Identificar minhas emoções e sensações era tão difícil que parecia que elas não existiam. Coisas que me provocariam nojo ou repulsa em situações típicas foram completamente dessensibilizadas em mim. Parecia tudo bem desentupir ralos, remover fezes e recolher insetos mortos. Também não me importei com comida molhada na pia e em lidar com outras coisas escatológicas.


É interessante observar como a carga emocional e sensorial não desaparecem, mas são deslocadas para o inconsciente. A Sombra processa todo o estresse, raiva e horror de forma a me proteger durante o dia, me tornando funcional quando eu precisava, compensando enquanto eu dormia. Agora, com a mudança concluída, finalmente tenho a oportunidade de desenvolver minha nova rotina.


Essa sensação é tão boa quanto subir os níveis de ascensão em Slay the Spire 2.

Pedro Dantas Anacleto é terapeuta analítico

O autor


Pedro Anacleto é um terapeuta analítico e autista diagnosticado tardiamente, que estuda a relação da pessoa no espectro com o inconsciente pessoal e coletivo, compreendendo o próprio diagnóstico como um exercício constante. Tem o objetivo de fazer o atípico ser compreendido e divulgar a pluralidade do espectro autista.


Apaixonado por videogames, utiliza os jogos como forma de expressão em seus textos e também como ferramenta de autorregulação.




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© 2026 por Pedro Anacleto

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